segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Quem muda quem no processo educacional?

A Pedagogia é a ciência que sistematiza os processos de ensino e aprendizagem, incluindo a interação dos sujeitos com o meio em que vivem, trabalham, se divertem e constroem sua história.

Dito isto, lembrei-me da experiência pedagógica vivida pelo artista plástico brasileiro Vick Muniz retratada no documentário Lixo Extraordinário (dirigido por Lucy Walker e co-dirigido por João Jardim e Karen Harley, entre 2007 e 2009). Trata da intervenção de Vick Muniz na comunidade do aterro sanitário Gramacho, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense.

E vem a pergunta: quem muda quem no processo educacional? O próprio Vick, em dado momento, diz que pensou que influenciaria a vida deles, e aconteceu o contrário. Afinal, pensou ele, que sua formação se sobreporia naturalmente "àquelas pessoas com aquele tipo de vida". O desenrolar do processo de interação mostrou que a vida nos guarda surpresas, neste caso as melhores.

Vick Muniz viu que não mudaria a vida das pessoas falando inglês fluente, como ele faz ao conversar com diversas pessoas envolvidas no projeto ou com parceiros da Inglaterra. Nem mudaria as coisas apenas oferecendo dinheiro em troca da participação dos catadores de material reciclável de Gramacho no documentário.

A grande mudança veio com a identificação. Quando ele volta ao passado, fala das dificuldades que viveu para superar a pobreza e encontrar seu lugar no mundo. E viu que as pessoas ali queriam encontrar seu espaço. E tudo andou mais rápido do que eles imaginavam e bem diferente do que Vick previu quando aportou no aterro sanitário.

É sempre bom rever esses momentos em que o cinema usa a arte para mudar, para construir, desconstruir e reconstruir. Para remover conceitos, mover e dar novos significados a coisas antes "consolidadas".

Temos muito a fazer. E temos muito a aprender. Este é o caminho. Este é o mundo a construir. Todos os dias, em todos os lugares por onde passarmos. E o exemplo do artista plástico deixa seu rastro na história recente. O caminho está dado.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A amizade segundo as crianças

Muito boa a história publicada na coluna Mães Anônimas, do blog Tudo Sobre Minha Mãe. Fala do modo simples como as crianças fazem amigos, compartilham brincadeiras e momentos juntos. Fala como é natural a maneira como se aproximam umas das outras. Reproduzo um trecho abaixo:

O amiguinho do meu filho tem síndrome de Down

"Lendo um texto publicado neste blog (“Ensinando aos filhos a derrubarem os muros do preconceito") me lembrei de uma história que sempre me emociona, não importa quantas vezes me lembre dela.

Aconteceu com Fred, meu segundo filho, quando ele tinha 8 anos, numa festa de aniversário. Apesar do meu olhar de leoa, observando de longe para ver se tudo estava bem, deixei que ele ficasse à vontade para se divertir.

Logo depois do "parabéns" e do bolo, quando nos preparávamos para ir embora, uma mãe se aproximou de nós, com os olhos cheios d’água. Levei um susto. Ela disse que queria me parabenizar por eu ter um filho tão gentil. Entre lágrimas, ela falou que o filho dela tinha síndrome de Down e que pela primeira vez na vida ele tinha encontrado um amiguinho que o tratou como uma criança qualquer".

Clique aqui e leia a história completa.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Figuras que ficam na memória

Sempre tive apreço pelos monumentos históricos, pela arquitetura, pelas diferentes construções e formas de expressão que eternizam nosso passado. Em particular, me atrai olhar e apreciar estátuas em homenagem a figuras que ficaram na memória do nosso povo.

Experimentei essa sensação novamente dia desses ao visitar a cidade de Belo Horizonte, capital mineira, muito acolhedora e com ares provincianos que se misturam a traços de modernidade das nossas capitais. Não resisti à ideia de fotografar a estátua da poetisa e escritora Henriqueta Lisboa, postada de forma muito elegante na charmosa região da Savassi, em BH.

A figura muito bem retratada de Henriqueta me deixou feliz e pensando no quanto isso é importante para conservar no nosso imaginário aquelas pessoas que já se foram, mas que não saem da nossa cultura. Vivas à conservação da nossa memória!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Contato com estudantes da rede de ensino de Votuporanga

Uma das atividades do livro que me fizeram muito feliz neste ano foi a visita à cidade de Votuporanga, na região noroeste do Estado de São Paulo. A série de palestras para estudantes da rede municipal de ensino local reforçou minha convicção sobre a importância do contato do escritor com as crianças e adolescentes. Estimula a criatividade e mostra como cresce o interesse delas pela leitura e pela escrita. Reproduzo abaixo um trecho de uma matéria de um site votuporanguense que noticiou minha passagem pelo município no início deste mês:

REDE MUNICIPAL: PROJETO "ESCRITOR NA ESCOLA" TRABALHA A INCLUSÃO

do Site Votunews, de Votuporanga (SP)

"A necessidade da reflexão sobre o respeito sem limites às diferenças foi o tema abordado pelo autor Djair Galvão Freire durante toda esta semana com os alunos dos Centros de Educação Municipal (CEM) da Rede de Ensino de Votuporanga. A programação faz parte do projeto “Escritor na Escola”.

Clique aqui e leia a matéria completa.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Uma boa história brasileira sobre poder, ambição e egoísmo

ARTIGO

A ambição e o egoísmo bem retratados em ‘Serra Pelada’

Por Djair Galvão*

A tendência humana de ceder à ambição e priorizar atitudes egoístas povoa o universo da literatura, do cinema e sempre se faz presente em outras manifestações artísticas.

Reafirmando esta tendência, o diretor de cinema Heitor Dhalia uniu-se ao ator Wagner Moura para dirigir e produzir o filme “Serra Pelada”, em cartaz em circuito nacional desde a última sexta-feira (19). A história resgata a epopéia da “corrida do ouro” brasileira ambientada no Pará na década de 1980 - numa área de onde saiu considerável parte da produção de ouro nacional e deu origem a uma cultura singular na região amazônica.

O roteiro é bem simples e direto: dois amigos deixam São Paulo em busca do ouro e se misturam a um universo de 20 mil garimpeiros oriundos de todos os cantos do país. A febre do ouro muda comportamentos, o que no dizer de um dos protagonistas do filme se resume à frase “este lugar piora as pessoas”. Misturam-se naquele lugar ambição, cobiça, sofrimento, poder, dominação e o resultado é o pior que se pode esperar.

A tentativa do governo militar de exercer algum “controle” sobre o garimpo criou uma nova “sociedade”: a 30 quilômetros do local, uma cidade foi erguida da noite para o dia. Lá, permitia-se tudo o que não era possível ter no garimpo – tais como homens, mulheres, bebidas, armas e toda sorte de desvios de comportamento que esta “mistura” produzia.

Após conseguirem o ouro tão desejado, os amigos da história de Heitor Dhalia e Wagner Moura entram em conflitos que só aumentam. A cobiça transforma a relação dos dois no mesmo ponto do qual falava o cantor Paulinho da Viola no clássico samba “Pecado capital” – “Quando o jeito é se virar, cada um trata de si/ Irmão desconhece irmão”.

Com ambientação perfeita, trilha sonora com lambadas, cabarés, bares e vilarejos que mais lembram paragens do Velho Oeste dos filmes americanos, “Serra Pelada” reproduz uma fase da recente história brasileira que precisa ser conhecida por todos nós. O filme pode deixar uma boa lição: a construção de uma nova sociedade passa, necessariamente, pela depuração dos seus erros, virtudes e costumes. Novos valores podem dar lugar ao que um dia foi uma montanha de erros, como no caso de Serra Pelada.

* Jornalista, professor e escritor, autor de O Saci de Duas Pernas (Eureca Produções, 3ª edição)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Quem ensina, aprende!

Na passagem de mais um Dia do Professor, sempre vale a pena reforçar a mensagem simples que diz: "Quem ensina, aprende". Aprende com a experiência de quem compartilha conhecimento, com quem convive, com a família, com os livros, a internet, as ruas, os colegas, os vizinhos, as experiências dos mais antigos - enfim é um sempre um aprendizado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Artigo: Exposição em SP celebra a diversidade do mundo

Será que o mundo é como imaginamos?

Por Djair Galvão*

A mais recente exposição do premiado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado tem méritos que superam a beleza plástica das imagens. “Genesis” reúne 245 fotografias dos quatro cantos do mundo com o propósito de ensinar algo simples e direto: o mundo não é, necessariamente, do jeito que imaginamos.

Quem mora nas grandes metrópoles é tentado a pensar o universo humano em conglomerados habitacionais, ruas e avenidas largas, cheias de carros, centros comerciais, prédios, casas, luzes, cores e muita gente circulando por todos os lugares. O nascer e o pôr do sol são ditados por esse ritmo.

Salgado prova que não é bem assim: uma família mora em uma casa no alto de uma árvore na África, um habitante do Ártico desliza suavemente em seu trenó puxado por renas – sem pegar congestionamento algum – e um caçador de aves em Papua-Nova Guiné exibe sua caça para as lentes do brasileiro sem se preocupar com o que pensam os defensores dos animais noutras partes do globo. Noutro momento, somos transportados para geleiras magníficas ou ficamos diante de iguanas gigantes de Galápagos, de jacarés do Pantanal e de leopardos do Quênia. Leões-Marinhos, indianos, habitantes da Sibéria, ariranhas, albatrozes e suas asas gigantes e a manada de elefantes enfeitam este cenário rico deste “outro mundo”.

É tanta beleza que parece não caber no olhar. A diversidade de rostos, lugares, tipos, ambientes inóspitos (para pessoas como nós) multiplica as possibilidades. Em dado momento você é tentado a pensar que tudo parece um filme. E não deixa de ser. É um conjunto de imagens, de gentes e de coisas, mas é a realidade. A realidade de boa parte dos bilhões de moradores do nosso planeta.

Em cartaz em São Paulo no Sesc Belenzinho, a exposição é uma aula foto a foto. Mostra que estamos pouco preparados para olhar para os outros. Olhar sem julgar. Sem querer que os outros sejam como gostaríamos ou como imaginamos. O que dizer dos índios do Xingu em seus trajes de cerimônia religiosa ou da mãe que carrega suas três crianças em um campo da Namíbia sem se preocupar com o que eu penso, faço ou deixo de pensar em São Paulo? Eles não sabem que eu existo, certamente nunca saberão e nem posaram para Salgado pensando nisso. Simplesmente se deixaram registrar porque confiaram no modo como ele os vê. Como eles realmente são.

O pai, a mãe, o professor ou a professora que quiser explicar aos pequenos (ou para os já crescidinhos) o que é diversidade, basta levá-los a estes universos eternizados nesta mostra. As imagens ensinam mais do que palavras, engolem qualquer discurso moralizador e encantam porque são reais. Lá não existem pessoas posando e nem lugares previamente preparados para as fotos. Mesmo que fosse assim, a mensagem não mudaria o principal: nosso olhar precisa ser “retreinado”. Nossas cabeças estão muito restritas a um cotidiano que nos aprisiona e nos torna tão pequenos diante de um mundo tão vasto e belo.

Esta é a moral desta fábula de imagens, de preto e branco, luzes e beleza: o mundo é tão diverso que não temos o direito de resumi-lo a uma visão mesquinha e pobre como a que construímos nesta nossa parte do mundo. Quem olhar detidamente as imagens captadas por Sebastião Salgado em “Genesis” vai pensar duas vezes antes de alimentar preconceitos tão idiotas quanto pensar que é o centro do universo.

* Jornalista, professor e escritor, autor de “O Saci de Duas Pernas” (Eureca Produções, 3ª edição)